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A mostrar mensagens com a etiqueta Sophia de Mello Breyner Andresen

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites Ó vida de mil faces transbordantes Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes! Sophia de Mello Breyner Andresen "Eyes closed" de Jennifer Anderson

Ausência

Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio da vida

Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado Porque o meio-dia Em seu despido fulgor rodeia a terra A casa compõe uma por uma as suas sombras A casa prepara a tarde Frutos e canções se multiplicam Nua e aguda A doçura da vida. Sophia de Mello Breyner Andresen

Prece

Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. Para ti criarei um dia puro Livre como o vento e repetido Como o florir das ondas ordenadas. Sophia de Mello Breyner Andresen

No tempo divido

E agora ó Deuses que vos direi de mim? Tardes inertes morrem no jardim. Esqueci-me de vós e sem memória Caminho nos caminhos onde o tempo como um monstro a si próprio se devora. Sophia de Mello Breyner Andresen

Puro espírito

Puro espírito do êxtase e do vento Que no silêncio da planície danças Eu não quero tocar teu corpo de água Nem quero possuir-te nem cantar-te Pesa-me já demais a minha mágoa Sem que seja preciso procurar-te. Sophia de Mello Breyner Andresen

Corpo

Corpo serenamente construído Para uma vida que depois se perde Em fúria e em desencontro vivido Contra a pureza inteira dos teus ombros. Pudesse eu reter-te no espelho Ausente e mudo a todo outro convívio Reter o claro nó dos teus flancos Rodeados pelo ar agradecido. Corpo brilhante de nudez intensa Por sucessivas ondas construído Em colunas assente como um templo. poema de Sophia de Mello Breyner Andresen pintura de Mirta Kupferminc

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim. A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho. Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim. Sophia de Mello Breyner Andresen

Dança de Junho

Em silêncio nas coisas embaladas Vão dançando ao sabor dos seus segredos. Nos seus vestidos brancos e bordados Raios de lua poisam como dedos, E em redor baloiçam arvoredos Escuros entre os céus atormentados. Sophia de Mello Breyner Andresen

alba em memória de sophia

é quando a luz safira e cor de rosa a humedecer as nuvens, matinal, alastra pelas praias, vagarosa, e nas dunas rendilha o seu metal, é quando algas e mar, corais, espuma e sombras transparentes vêm na brisa, é quando em nós a lira desarruma a angústia e o silêncio e a imprecisa densidade do tempo e se combina do ouvido à alma na medida certa uma geometria cristalina, é quando um crespo deus pagão desperta a dar o alento próprio à maresia e canta ao encontrar-se com sophia. Vasco Graça Moura

Barcos

Um a um para o mar passam os barcos Passam em frente de promontórios e terraços Cortando as águas lisas como um chão E todos os deuses são de novo nomeados Para além das ruínas dos seus templos. Sophia de Mello Breyner Andresen

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas, O cheiro da terra era fundo e amargo, E ao longe as cavalgadas do mar largo Sacudiam na areia as suas crinas. Era o céu azul, o campo verde, a terra escura, Era a carne das árvores elástica e dura, Eram as gotas de sangue da resina E as folhas em que a luz se descombina. Eram os pinheirais onde o céu poisa, Era o peso e era a cor de cada coisa, A sua quietude, secretamente viva, E a sua exaltação afirmativa. Era a verdade e a força do mar largo, Cuja voz, quando se quebra, sobe, Era o regresso sem fim e a claridade Das praias onde a direito o vento corre. Sophia de Mello Breyner Andresen