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Mensagens

A minha morte não ta dou

A minha morte, não ta dou.  De resto, tiveste tudo  - a flor, a sesta, o lusco-fusco,  a inquietação do dia 8,  as órbitas das mães, das mãos,  das curiosas palavras de não dizer nadinha.  Tudo tiveste: estás contente?  Feliz assim por teres tudo o que sou?  Feliz por perderes tudo o que sei?  Só não te dou o que não serei.  Não, a minha morte, não ta dou.  Pedro Tamen
Bert Hardy  

Assim seja

O dia fica para trás, mal consumido e já inútil. Começa a grande luz, todas as portas se abrem diante de um homem adormecido, o tempo é uma árvore que não para de crescer. O tempo, a grande porta entreaberta, o astro que cega. Não é com os olhos que se vê nascer essa gota de luz que será, que foi um dia. Canta abelha, sem pressa, percorre o labirinto iluminado, de festa. Respira e canta. Onde tudo termina abre as asas. És o sol, o aguilhão da aurora, o mar que beija as montanhas, a claridade total, o sonho. Blanca Varela

Aqueronte

Não sei que barco tomar quando estou na margem do teu corpo... Pedro Freitas

The Seal Lullaby

VOCES8, Eric Whitacre  Eric Whitacre, Christopher Glynn   

É este o dia anunciado, a hora da desesperança!

É este o dia anunciado, a hora da desesperança! Expulsos de um tempo julgado sem fim, onde os corpos se banharam indolentes e incautos, procuramos em vão, de novo, o caminho...sem um fio de luz, sem alento, sem consolo. Os teus olhos, os meus olhos, os nossos olhos quase cegos choram, tardiamente, a memória ardida, prostrados perante as etéreas cinzas que de nós se apartam. É esta a manhã negra do nosso desalento! Afastados da vida, num devir atormentado que nos lança as presas onde já não há carne,  resta-nos cumprir a pena aceitando-a como um bálsamo. Os meus braços, os teus braços, os nossos abraços esmagados, ameaçados, extintos, são as estátuas de pedra que tomam agora o lugar das árvores caídas. São estas as criaturas inumadas em que nos transfigurámos! E assim, levianos, soterrados no sedimento do nosso desânimo, ora resignados, ora alarmados, seguimos...com a granada dentro do peito. [ alma ]

Aqui nesta praia | 43

Afternoon reflections, Patti Mollica  

A essência dos dias.3

Caminham agarradas pelas mãos. De mãos dadas. Enormes na sua tenra idade. Juntas na multidão que sai do comboio. Caminhamos juntos! Sobem a rampa a espalhar esse amor. O seu amor! Paixão! O amor que lhes pertence. O amor que agora vemos. Elas, e eles, e nós, todos visíveis. Vemo-nos! Iguais. Iguais a mim! Iguais para todos?...Talvez ainda não...plenamente...mas estamos tão perto! Bendito dia! Bendita manhã inundada de esperança e luz! Bendito final de setembro.  O Sol e a alma vibrantes, neste instante feliz plantado no horizonte. [ alma ]

Fragmento de...

O Morcego de Jo Nesbø "(...) se existe algo lá em cima, e se quiserem almas belas, então é onde ele vai estar. - Sorriu. - Mas se houver algo lá em baixo, penso que é onde ele preferia estar. Detestava sítios enfadonhos."

Quando aprendemos a ouvir as árvores

"(...) quando aprendemos a ouvir as árvores, a brevidade e a rapidez e a pressa infantil dos nossos pensamentos alcançam uma alegria incomparável. Quem aprendeu a escutar as árvores já não quer ser uma árvore. Ele não quer ser nada, exceto o que ele é. Isso é estar em casa. Isso é a felicidade.” Herman Hesse pintura de David Hockney

Ana Paula Tavares | Ritos de Passagem

 

Estação do Trem

E depois acordamos sempre ainda meio vivos Um pouco ensonados É-nos mais ou menos fácil entrar na vida depois destas coisas Prometemos várias vezes que não tocaríamos o amor por jogatanas de pingue-pongue e quando finalmente percebemos que o ace do pingue-pong é e-x-a-t-a-m-e-n-t-e a medida certa do amor rejubilamos na gargalhada que só pode ser que afinal sempre foi (os dois acreditamos nisso) a herança de Deus para nós. Sim olha eu lembro-me de quando tu só sabias contar até quatrocentos. Matilde Campilho

Ler contra o silêncio | 22

An old woman reading Rembrandt van Rijn

A essência dos dias.2

O livro aberto pousado nas suas mãos. Na macieza dos lábios as palavras mastigadas em silêncio e na dobra das pálpebras pequenos fragmentos de texto que não couberam naquelas páginas. A serena curva temporal do rosto acumula todos os pequenos assombros emocionais que cada parágrafo percorrido lhe desperta. O belíssimo rosto do ser amado a ler ilumina-se entretanto por um raio de sol que abre caminho por entre nuvens, braços, ombros e sacos. Olho a sua face iluminada. Iluminada pelo singelo e extraordinário raio de sol que ali escolheu terminar a sua viagem cósmica. Ali, no seu rosto, entre tantos outros na carruagem do comboio numa manhã de fevereiro. Ninguém atenta na singularidade deste instante. A luz que há minutos partiu de uma estrela viaja agora connosco no comboio. Ilumina-te. E na dobra do tempo, como antes na dobra das tuas pálpebras, somos atingidos pela poeira desta centelha. Somos perfeitos. Estamos numa única dimensão. Estamos em todo o lado. [ alma ]

Tudo

Deitado numa núvem de não-ser Deixei ao deus-dará tantos abraços Afastando-me assim, sem o saber Do ponto de chegada dos meus passos Caminho é quanto fica da viagem Paragem é caminho para trás E agora só me resta por bagagem O tanto mal que fez o tanto-faz Julgava não ser nada, e era tudo Pois tudo, em cada nada, acontece Pr' além das sombras do tempo miúdo A grande luz do tempo permanece Contigo, tenho agora de inventar Essoutra núvem de uma cor diferente Em que, à força de aprender como te amar Eu aprenda a amar tudo e toda a gente À força de aprender como te amar Aprendo a amar tudo e toda a gente José Mário Branco (fado das núvens)

Quero apenas cinco coisas...

Quero apenas cinco coisas... Primeiro é o amor sem fim A segunda é ver o outono A terceira é o grave inverno Em quarto lugar o verão A quinta coisa são teus olhos Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. Pablo Neruda

Cinzeiro

Tenho um cinzeiro de vidro, um belo cinzeiro quadrado, um peso monstro permanentemente esquecido no aparador da sala, dado que cá em casa ninguém fuma. Comprei-o a pensar na imensa gente que na altura fumava, e sempre era uma coisa mais apresentável do que lhes indicar o pires do café para largarem a cinza. Agora, já quase ninguém fuma, e os que fumam fogem para a rua, desculpem, que tenho de ir fumar um cigarro, dizem eles com um ar entre a aflição e o de quem vai assaltar alguém à mão armada. E eu fico com um cinzeiro sem serventia nenhuma. E uma máquina de escrever. E discos de vinil. E um abre-cartas. Estou a ficar velha, caramba. Cristina Nobre Soares Em linha recta

Aqui nesta praia | 42

Dama en la playa, Jose Manuel Capuletti