Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Evening song

Sir George Clausen

Echo

Ellen Thesleff

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono não quero que te preocupes inutilmente. Será apenas uma noite sucedendo-se a outra noite interminavelmente. Se a doença me tolher na cama e a morte aí me for buscar, beija Amor, com a força de quem ama, estes olhos cansados, no último instante. Se, pela triste monotonia do entardecer, me encontrarem estendido e morto, quero que me venhas ver e tocar o frio e sangue do corpo. Se, pelo contrário, morrer na guerra e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia, quero que saibas, Amor, quero que saibas, pelo cérebro rebentado, pela seca veia, pela pólvora e pelas balas entranhadas na dura carne gelada, que morri sim, que me não repito, mas que ecoo inteiro na força do meu grito. Rui Knopfli

Ler contra o silêncio | 20

Girl Reading in a Sunlit Room Carl Vilhelm Holsøe

High seas off Troswickness

Ruth Brownlee

Aqui nesta praia | 41

Children playing on the beach,  Mary Cassatt

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim e se por acaso te toco a memória... amas ou finges morrer pressinto o aroma luminoso dos fogos escuto o rumor da terra molhada a fala queimada das estrelas é noite ainda o corpo ausente instala-se vagarosamente envelheço com a nómada solidão das aves já não possuo a brancura oculta das palavras e nenhum lume irrompe para beberes Al Berto

Jade Room

Caroline Walker

Verdes anos

Era o amor que chegava e partia: estarmos os dois era um calor que arrefecia sem antes nem depois… Era um segredo sem ninguém para ouvir: eram enganos e era um medo, a morte a rir nos nossos verdes anos... Teus olhos não eram paz, não eram consolação. O amor que o tempo traz o tempo o leva na mão. Foi o tempo que secou a flor que ainda não era. Como o Outono chegou no lugar da Primavera! No nosso sangue corria um vento de sermos sós. Nascia a noite e era dia, e o dia acabava em nós… O que em nós mal começava não teve nome de vida: era um beijo que se dava numa boca já perdida. Pedro Tamen
"(...) Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste (...)" Héctor Abad Faciolince Receitas de Amor para Mulheres Tristes

Ballet dancer in Cuba

You want it darker | Leonard Cohen

There´s a lullaby for suffering And a a paradox to blame ... You want it darker We kill the flame

Ler contra o silêncio | 19

Girl in grey Louis le Brocquy

Aqui nesta praia | 40

On the sands,  William Henry Margetson

Ternura | Vinícius de Moraes

Eu te peço perdão por te amar de repente  Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos Das horas que passei à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos Das noites que vivi acalentado Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente E posso te dizer que o grande afeto que te deixo Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas Nem as misteriosas palavras dos véus da alma... É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias E só te pede que te repouses quieta, muito quieta E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.  Vinícios de Moraes

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu Serão bonitas, não importa São bonitas as canções Mesmo miseráveis os poetas Os seus versos serão bons Mesmo porque as notas eram surdas Quando um Deus sonso e ladrão Fez das tripas a primeira lira Que animou todos os sons E daí nasceram as baladas E os arroubos de bandidos como eu Cantando assim: Você nasceu para mim Você nasceu para mim Mesmo que você feche os ouvidos E as janelas do vestido Minha musa vai cair em tentação Mesmo porque estou falando grego Com sua imaginação Mesmo que você fuja de mim Por labirintos e alçapões Saiba que os poetas como os cegos Podem ver na escuridão E eis que, menos sábios do que antes Os seus lábios ofegantes Hão de se entregar assim: Me leve até o fim Me leve até o fim Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso São bonitas, não importa São bonitas as canções Mesmo sendo errados os amantes Seus amores serão bons Chico Buarque e Edu Lobo

All Bells In Paradise | Kings College Choir, John Rutter

A Biblioteca Vazia

C onto escrito sobre A Biblioteca, de Zoran Zivkovic. Caros companheiros do clube de leitura Pareceu-me apropriado sugerir que nos encontrássemos hoje para uma degustação. No encalce de Zoran cada um de nós deliciar-se-ia com o seu livro, partilhando os sabores originais que tal manjar descobriria, ou não…contudo… encontro-me impedida de o fazer. Terminada ontem a leitura, guardei como sempre o meu Zoran, na minha mochila, no seu compartimento. Esta seria a última vez que nos veríamos. Em casa, quando mergulhei a minha mão para recolher, ciosa, e uma a uma, todas as bibliotecas lidas, não as encontrei. Nenhuma, sem explicação e sem rasto. Nunca, nenhum livro, por muito fraco, decrépito, ruim ou danado que fora, se atrevera a deixar alguém. Mas Zoran fê-lo. Zoran atreveu-se a desafiar o impossível. Zoran chamou-me de modo furtivo e dissimulado, abraçou-me, levou-me por atalhos singulares e estrangeiros. Desafiou-me no exato e cirúrgico modo que sabia me aprazer e, depoi...