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Mensagens

La coiffure

Roman Zaslonov

Haute coiffure

Roman Zaslonov

As raparigas amam muito

As raparigas amam muito. Riem atrás das mãos uma manhã inteira para esconder o vermelho dos beijos que alguém lhes roubou e um nome que vão deixar escapar entre as primeiras palavras que disserem. Vestem do avesso os aventais de chita e fazem o leite sobrar do fervedor e o caldo ser mais salgado do que o mar. Mas é bonito vê-las caminhar descalças ao longo do corredor, como se pedissem um par para dançar. As raparigas amam tanto. Sentam-se em rodas de segredos uma tarde inteira e esquecem no tanque os colarinhos sujos das camisas, e os cueiros, e uma barra de sabão a derreter-se como o seu coração. Mas é bonito vê-las beijar a boca ao espelho no quarto das traseiras e também a outra boca no retrato que a seguir escondem amordaçado na algibeira, não lhes cobice alguém o que não tem. As raparigas amam de mais. Deixam-se ficar sem dizer nada uma noite inteira, bordando no linho dos enxovais letras secretas ao calor do fogão. E picam os dedos distraídos nas agulhas que usaram para descobri...

Endormie

Roman Zaslonov

Nunca soube o teu nome

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde, por engano, a perguntar se eu era outra pessoa - um sol que de repente acrescentava cal aos muros, um incêndio capaz de devorar o coração do mundo. Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas, antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou de ser gato, para poder ter mais do que uma vida. Maria do Rosário Pedreira

Não é ainda a pele, apenas

Não é ainda a pele, apenas um rumor de lã nas camisolas, um recado a lembrar tardes no feno, linho lavado, o sol mordendo um rio pela manhã ― assim a distância entre a minha mão e o pessegueiro. Na estrada as flores demoram-se até às laranjas, mas o aroma do pomar faz sede e os olhos cegam na promessa de gomos novos e doces, os mais doces. Talvez por isso se continue a viagem sem olhar para trás. Maria do Rosário Pedreira

Winter Arm

Robert and Shana ParkeHarrison

Gentofte lake

Vilhelm Hammershøi

Raios de sol...

Vilhelm Hammershøi

Singing depart from me

Ai Xuan

Curtain

Hendrik Kerstens

Amanhã

Amanhã meu amor, amanhã faço poemas com os teus dedos donde nascem flores, amanhã escrevo-te cartas com os lábios a tremer de frio, amanhã adormeço desperta no canto mais canto que houver da tua voz, amanhã meu amor, verei todas as folhas amarelas que nascem do chão e regressam aos ramos dos teus braços, amanhã vou dançar no silêncio proibido que te cala, amanhã fecho os olhos e finjo que estou acordada para que me toques as pálpebras com a respiração ofegante de quem cega, amanhã meu amor, abro as janelas do peito onde nascem estrelas sem céu, abro a cama e procuro-te debaixo dela, dou-te a mão para que me encontres no mapa da pele dorida, para que me encontres talvez no mesmo sítio de sempre onde nunca foste, amanhã meu amor, dedico-te o vento que roça as estátuas já esverdeadas da tua cidade, faço-te promessas de palavras que não existem, desafio-te para um duelo de um só combatente, deixo-te sozinho comigo encostada aos teus ombros de lava, amanhã meu amor, vou cantar canções na rá...

From the series Pink Coat And Slippers

Tiina Heiska

Ausência

Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. Sophia de Mello Breyner Andresen

From the series "The Eclipse"

Tiina Heiska

Inverno: o meu segredo

Revelar meu segredo? Não, por certo; Talvez quem sabe, um dia em breve. Mas hoje não; tombou geada e neve. Se a curiosidade te hei desperto E sem pudor o queres ouvir, pois bem: O segredo é meu, não conto a ninguém. Talvez nem haja nada que contar: Imagina afinal que não há segredo, Era só a brincar. Hoje está frio, é um dia azedo Em que faz falta uma roupa abafada, Um xaile e mantas que nos aqueçam; Não posso abrir a todos quantos peçam, Deixar o vento entrar-me de rajada, Rodear-me, cercar-me, Aturdir-me, assustar-me, Enregelar-me sob este disfarce Que me aconchega; Pois quem quer desnudar-se Ao vento frio que o há-de fustigar? Não me fustigarias? Obrigada, Mas deixa essa verdade inda velada. É bela a Primavera; todavia Não confio em Março com seus tremores, Nem em Abril co´a breve chuva fria, Muito menos em Maio cujas flores Murcham co´a geada da noite sombria. Talvez num dia lânguido de Estio, Quando o sol faz as árvores dormitar E se cobre de ouro a loura espiga, Com fresca brisa ...