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Mensagens

À luz da lua | 14

Pregnant woman Frans Koppelaar

Acontecimento

Tu choravas e eu ia apagando com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas – riscos na areia mole e quente do teu rosto. Choravas como quem se procura. E eu descobria mundos, inventava nomes, enquanto ia espremendo com as mãos o meu sangue todo no teu sangue. Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente. Sei que tudo estava suspenso, esperando não sei que grave acontecimento, e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos meus sentidos. Só a minha boca era uma abelha inquieta percorrendo e picando o teu corpo de beijos. Depois só dei pela manhã, a manhã atrevida entrando devagar, muito devagar e acordando-me. Desviei os meus olhos para ti: ao longo do teu corpo morriam as estrelas. A noite partira. E, lentamente, o sol rompeu no céu da tua boca. Albano Martins

Studying

Bui Huu Hung

Praying

Bui Huu Hung

Dance of life

Andrew Lewandowski

The dance of life

Edvard Munch

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua mais que perfeita imprecisão, os dias que contam quando não se espera, o atraso na preocupação dos teus olhos, e as nuvens que caíram mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações a abrir-se para dentro e para fora dos sentidos que nada têm a ver com círculos, quadrados, rectângulos, nas linhas rectas e paralelas que se cruzam com as linhas da mão; a vida que traz consigo as emoções e os acasos, a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram e dos encontros que sempre se soube que se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, sob a luz indecisa que apenas mostra as paredes nuas, de manchas húmidas no gesso da memória; a vida feita dos seus corpos obscuros e das suas palavras próximas. Nuno Júdice

Aqui nesta praia | 26

Reading by the shore,  Charles Sprague Pearce

Evening

Anne Horst

Segredo

Nem o Tempo tem tempo para sondar as trevas deste rio correndo entre a pele e a pele Nem o Tempo tem tempo nem as trevas dão tréguas Não descubro o segredo que o teu corpo segrega. David Mourão-Ferreira

Amor em solidão

Estrela que morreu Ainda palpita em vão A tua luz sou eu Amando em solidão Noturno mar sem Deus Tu és na escuridão Igual aos cantos meus Uma desolação Ah, se eu pudesse dizer-te Que pela graça de ver-te Já nem me importa ter que fingir E a cada ruga que nasce Tento esconder minha face Na máscara que te faz sorrir Porque este amor demais Que nunca vai ter fim Na morte que me traz É a vida para mim. Vinícius de Moraes

Colourful silence

Frank Pudney

São tristes os meus dias com pedras

São tristes os meus dias com pedras em lugar de mãos ou a cabeça funda na brancura de través do travesseiro e o corpo depresso em moles guindastes. São dias de chorar por menos ou teimar queixoso com um crânio polido, batuque convexo no muro demorado. Ficar a ouvir o sangue, o som tubular do sangue. Ao vale seco da clavícula atrair a água, o sangue e sorver a sopa intestina ou se o líquido escapa à boca tantálica, calar com argila o que me pede água. Ficar a palpar os buracos da ausência, as ligas da ausência, as ribanceiras a que caem os pensamentos, a cor dióspiro que banha a enfermidade e em seguida tomar o pulso evadido, travar o touro, o soco da dor, o infinito infinitivo presente. Uma amálgama de alma migra no fôlego de modorrento pregão de dor, o condor passa e anda andino e é uma traça asfixiante: faço um céu rarefeito, a dispneia é um felino que arranha céus e a boca rebuliço espúmeo expele o sabor da morte e o que mais consiga cuspir por entre ovéns e enxárcias e traves quebr...

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, freqüentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta: lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma. João Cabral de Melo Neto

Breezing Up (A Fair Wind)

Winslow Homer Vou aproveitar esta brisa de feição...estarei de volta no final da próxima semana. Fiquem bem!

Barcos

Um a um para o mar passam os barcos Passam em frente de promontórios e terraços Cortando as águas lisas como um chão E todos os deuses são de novo nomeados Para além das ruínas dos seus templos. Sophia de Mello Breyner Andresen

Kung Hei Fat Choi

Porto Interior (Macau) Carlos Marreiros Feliz Ano Novo Lunar!
Zhang Jie

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos só com a respiração e a cadência da muda passagem dos sopros caminho como um remo que se afunda. os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes para que a elevação e a profundidade se conjuguem. avanço sem jugo e ando longe de caminhar sobre as águas do céu. Daniel Faria