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Mensagens

Wang Yi Dong

Soneto da madrugada

Pensar que já vivi à sombra escura Desse ideal de dor, triste ideal Que acima das paixões do bem e do mal Colocava a paixão da criatura! Pensar que essa paixão, flor de amargura Foi uma desventura sem igual Uma incapacidade de ternura Nunca simples e nunca natural! Pensar que a vida se houve de tal sorte Com tal zelo e tão íntimo sentido Que em mim a vida renasceu da morte! Hoje me libertei, povo oprimido E por ti viverei meu ódio forte Nesse misterioso amor perdido. Vinícius de Moraes

The Pink Orchard

Vincent Van Gogh

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro e quanto mais amada mais desisto: quanto mais tu me despes mais me cubro e quanto mais me escondo mais me avisto. E sei que mais te enleio e te deslumbro porque se mais me ofusco mais existo. Por dentro me ilumino, sol oculto, por fora te ajoelho, corpo místico. Não me acordes. Estou morta na quermesse dos teus beijos. Etérea, a minha espécie nem teus zelos amantes a demovem. Mas quanto mais em nuvem me desfaço mais de terra e de fogo é o abraço com que na carne queres reter-me jovem. Natália Correia

The Pink Peach Tree

Vincent Van Gogh

Sete luas

Há noites que são feitas dos meus braços e um silêncio comum às violetas e há sete luas que são sete traços de sete noites que nunca foram feitas Há noites que levamos à cintura como um cinto de grandes borboletas. E um risco a sangue na nossa carne escura duma espada à bainha de um cometa. Há noites que nos deixam para trás enrolados no nosso desencanto e cisnes brancos que só são iguais à mais longínqua onda de seu canto. Há noites que nos levam para onde o fantasma de nós fica mais perto: e é sempre a nossa voz que nos responde e só o nosso nome estava certo. Natália Correia

The White Orchard

Vincent Van Gogh

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse ou se ao menos me desses as mãos como quem beija e não partisses, assim, empurrando o vento com o coração aflito, sufocado de segredos; se ao menos percebesses que eram nossos todos os bancos de todos os jardins; se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo que ambos empunhamos na cidade clandestina Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo; se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos para guardar o teu corpo; se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos onde o teu rosto se esconde no meu rosto e a minha boca lembra a tua despedida, talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer essa cor perdida nos teus olhos. Joaquim Pessoa

Almond Tree in Blossom

Vincent Van Gogh

Almond Blossom

Vincent Van Gogh

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas, O cheiro da terra era fundo e amargo, E ao longe as cavalgadas do mar largo Sacudiam na areia as suas crinas. Era o céu azul, o campo verde, a terra escura, Era a carne das árvores elástica e dura, Eram as gotas de sangue da resina E as folhas em que a luz se descombina. Eram os pinheirais onde o céu poisa, Era o peso e era a cor de cada coisa, A sua quietude, secretamente viva, E a sua exaltação afirmativa. Era a verdade e a força do mar largo, Cuja voz, quando se quebra, sobe, Era o regresso sem fim e a claridade Das praias onde a direito o vento corre. Sophia de Mello Breyner Andresen

Maresias #186

Nanã Sousa Dias

Bastava-nos amar. E não bastava

Bastava-nos amar. E não bastava o mar. E o corpo? O corpo que se enleia? O vento como um barco: a navegar. Pelo mar. Por um rio ou uma veia. Bastava-nos ficar. E não bastava o mar a querer doer em cada ideia. Já não bastava olhar. Urgente: amar. E ficar. E fazermos uma teia. Respirar. Respirar. Até que o mar pudesse ser amor em maré cheia. E bastava. Bastava respirar a tua pele molhada de sereia. Bastava, sim, encher o peito de ar. Fazer amor contigo sobre a areia. Joaquim Pessoa

Outono

Uma lâmina de ar Atravessando as portas. Um arco, Uma flecha cravada no outono. E a canção Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas. E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio. É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza Quando saio para a rua, molhado, como um pássaro. Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito. Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede Cumprimenta o sol. Procura-se viver. Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas. Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se Como se, de repente, não houvesse mais nada senão A imperiosa ordem de (se) amarem. Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras. Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos. Não há um nome para a tua ausência. Há um muro Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho Que a minha boca recusa. É outono. A pouco a pouco despem-s...

Festa da Música

O hálito azul da tarde associa-se ao luto, sentido, pela partida da Festa da Música. Ver insustentável .

Nos olhos de Isa

Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite Acende fogueiras. Os meus olhos param. Nos olhos de Isa. Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde. Nos olhos de Isa. Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas, Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra. Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel Onde as abelhas constroem a tarde Desesperadamente. Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão. Joaquim Pessoa

À luz da lua | 9

Mother about to wash her sleepy child Mary Cassat

Celebrar

Haverá mesmo noite para celebrar? Como se esta noite fosse uma seringa à cabeceira, está na estante um monte de livros e só um tem um lápis dentro; onde está o fogo para levar para fora, às luzes onde qualquer rua derrota e apaga os seus candeeiros? de noite no quarto, e com pena de não saber fumar, fica esta noite estúpida dentro da cabeça, para fazeres dentro o que bem entendes como se fosse um papel para escrever, e chegassem com força os ventos às janelas, como um tiro. é tarde, tanto faz estarem as mãos nos bolsos como não, tanto faz passar alguém como não passar, e olhar. Rogério da Cruz