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Mensagens

Aqui nesta praia | 14

Femmes sur la plage,  Edouard Manet

Venho de dentro, abriu-se a porta...

Venho de dentro, abriu-se a porta: nem todas as horas do dia e da noite me darão para olhar de nascente a poente e pelo meio as ilhas. Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo de só imaginá-la a luz fulmina-me, na outra face ainda é sombra Banhos de sol nas primeiras areias da manhã Mansidões na pele e do labirinto só a convulsa circunvolução do corpo. Luiza Neto Jorge

Domingo no mundo | 2

As irmãs e seus cães Karina www.olhares.com

Getting ready

Cheng Yuanan

A Casa do Mundo

Aquilo que às vezes parece um sinal no rosto é a casa do mundo é um armário poderoso com tecidos sanguíneos guardados e a sua tribo de portas sensíveis. Cheira a teias eróticas. Arca delirante arca sobre o cheiro a mar de amar. Mar fresco. Muros romanos. Toda a música. O corredor lembra uma corda suspensa entre os Pirinéus, as janelas entre faces gregas. Janelas que cheiram ao ar de fora à núpcia do ar com a casa ardente. Luzindo cheguei à porta. Interrompo os objetos de família, atiro-lhes a porta. Acendo os interruptores, acendo a interrupção, as novas paisagens têm cabeça, a luz é uma pintura clara, mais claramente lembro: uma porta, um armário, aquela casa. Um espelho verde de face oval é que parece uma lata de conservas dilatada com um tubarão a revirar-se no estômago no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos. É a casa do mundo: desaparece em seguida. Luiza Neto Jorge

Domingo no mundo | 1

Girl @ Floating Village Zhang Jie (People in Cambodia) www.pbase.com/zhangjie

Domingo no mundo

(...) Hoje vais crescer pra lá do teu tamanho o cansaço é tamanho… mas talvez amanhã seja domingo no mundo e tudo bata certo nem que por um segundo fogo de artifício explodiria se fosse assim p´ra sempre um dia (...) Sérgio Godinho

Sophia

Da lusitana antiga fidalguia um dizer claro e justo e franco uma concreta e certa geometria uma estética do branco debruado de azul. Sua escrita é de nau e singradura e há nela o mar o mapa a maravilha. Sophia lê-se como quem procura a ilha sempre mais ao sul. Manuel Alegre

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos A viver livres como os animais E mesmo tão cansados floriremos Irmãos vivos do mar e dos pinhais. O vento levará os mil cansaços Dos gestos agitados irreais E há-de voltar aos nosso membros lassos A leve rapidez dos animais. Só então poderemos caminhar Através do mistério que se embala No verde dos pinhais na voz do mar E em nós germinará a sua fala. Sophia de Mello Breyner Andresen

Pátria

Por um país de pedra e vento duro Por um país de luz perfeita e clara Pelo negro da terra e pelo branco do muro Pelos rostos de silêncio e de paciência Que a miséria longamente desenhou Rente aos ossos com toda a exactidão Dum longo relatório irrecusável E pelos rostos iguais ao sol e ao vento E pela limpidez das tão amadas Palavras sempre ditas com paixão Pela cor e pelo peso das palavras Pelo concreto silêncio limpo das palavras Donde se erguem as coisas nomeadas Pela nudez das palavras deslumbradas - Pedra rio vento casa Pranto dia canto alento Espaço raiz e água Ó minha pátria e meu centro Me dói a lua me soluça o mar E o exílio se inscreve em pleno tempo Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia | 13

Two Women on the Beach,  Paul Hull Julian

Aqui nesta praia | 12

Femmes sur la plage,  Joan Miró

O poema

O poema me levará no tempo Quando eu já não for eu E passarei sozinha Entre as mãos de quem lê O poema alguém o dirá Às searas Sua passagem se confundirá Como rumor do mar com o passar do vento O poema habitará O espaço mais concreto e mais atento No ar claro nas tardes transparentes Suas sílabas redondas (Ó antigas ó longas Eternas tardes lisas) Mesmo que eu morra o poema encontrará Uma praia onde quebrar as suas ondas E entre quatro paredes densas De funda e devorada solidão Alguém seu próprio ser confundirá Com o poema no tempo Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia | 11

Women on the beach,  Sharon Wilson

Manuel Bandeira

Este poeta está Do outro lado do mar Mas reconheço a sua voz há muitos anos E digo ao silêncio os seus versos devagar Relembrando O antigo jovem tempo tempo quando Pelos sombrios corredores da casa antiga Nas solenes penumbras do silêncio Eu recitava "As três mulheres do sabonete Araxá" E minha avó se espantava Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó Quando em manhãs intactas e perdidas No quarto já então pleno de futura Saudade Eu lia A canção do "Trem de ferro" E o "Poema do beco" Tempo antigo lembrança demorada Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira Quando Me sentava nos bancos pintados de fresco E no Junho inquieto e transparente As três mulheres do sabonete Araxá Me acompanhavam Tão visíveis Que um eléctrico amarelo as decepava Estes poemas caminharam comigo e com a brisa Nos passeados campos da minha juventude Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro E foram parte do tempo respirado. Sophia de Mello Breyner Andre...

I Vow to Thee, My Country

A propósito da suite Os Planetas de Gustav Holst... I vow to thee, my country, all earthly things above, Entire and whole and perfect, the service of my love; The love that asks no question, the love that stands the test, That lays upon the altar the dearest and the best; The love that never falters, the love that pays the price, The love that makes undaunted the final sacrifice. And there's another country, I've heard of long ago, Most dear to them that love her, most great to them that know; We may not count her armies, we may not see her King; Her fortress is a faithful heart, her pride is suffering; And soul by soul and silently her shining bounds increase, And her ways are ways of gentleness, and all her paths are peace. poema de Cecil Spring-Rice adicionado a Jupiter: The Bringer of Jollity

Aqui nesta praia | 10

Solitude, women at the beach,  Rita C. Ford

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. Manuel Bandeira

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que eu nunca tive E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d`água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Pasárgada Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar - Lá sou amigo do rei - Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora...