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Mensagens

Colours

Manuel Librodo

Escrito como o vi

Uma brisa ligeira agita as folhas do salgueiro
os lótus de flores ébrias embebem-se de poente
nos montes distantes pálidas núvens acariciam o céu ainda claro
a rapariga dos pós vermelhos tem seguramente doze,treze anos
docemente, ela recolhe uma canoa carregada de nenúfares



Zhang Kejiu
Tradução da versão em língua francesa e selecção de Albano Martins

Aqui nesta praia | 37

East Hampton, Long Island Winslow Homer

Guarda-me o dia em sua luz a graça

Guarda-me o dia em sua luz a graça
da hora final em ouro que debrua
a nuvem no abandono que extenua
a lembrança em recato enquanto passa

ao banho de águas claras e flutua
o espírito no tanque aonde a baça
marca de amigos passos vai na traça
da recta infinitude e desvirtua

esta os sentidos Pronto o lugar sei
o pé detém-se a erva fique intacta
e que o chão é incólume verei

do sol a declinar que ali desata
incêndios no horizonte: então fenece
o dia e meu refúgio me aparece.




Walter Benjamin
tradução de Vasco Graça Moura

Ler contra o silêncio | 14

Woman readingUtagawa Kuniyoshi

Green Grass of Tunnel

E colho um tufo de erva do teu corpo, como-o, deito-me nele, sinto-lhe a humidade que ficou da última noite, quando nos deitámos e rebolámos e cruzámos, com insectos a medirem-nos a respiração, prostro-me sob a sombra do teu peito, deixo cair dos olhos alguns flocos de neve. Andamos sempre à procura de uma noite que não tem dias, uma noite sem sinais, candeeiros que reflectem a agitação dos mosquitos à queima-roupa. Andamos como uma letra despovoada, nos silos da ternura, a encostar um sopro a outro sopro. Nada nos cura.



Henrique Fialho
Insónia

Edge

Nicholas Hughes

Paixão

estou no mais alto
da pura manhã

o meu coração é uma lágrima enorme
um frágil astro
que procura na linha dos teus lábios
o despertar generoso
dos solstícios
o alegre andamento
das estações

e quando desces a montanha do teu sono
e ficas tão nua da noite

eu
eu só sou
o sereno rio que passa
e que numa paixão de luz
te leva
ao azul infinito do mar



gil t. sousa
#poesia

Hush

Loretta Lux

Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.



David Mourão-Ferreira

Aqui nesta praia | 36

Les Deux Baigneuses
William-Adolphe Bouguereau

Farringdon

Richard Bram

Sexy Like Chicken

Richard Bram

Keep Clear

Richard Bram

Face a Face

Entendamo-nos:
falar de ti e dos teus olhos de garça enevoados
seria talvez tão vulgar como enumerar as coisas simples e nisso
não há qualquer desafio
Existe apenas uma razão íntima, como a de quem
não gosta de se repetir ou de estar de costas voltadas para o mar,
amando o imprevisto como um sinal de alarme

Também, falar de mim, poderia tornar-se perigoso,
se me virasse para dentro, habitando a minha memória e não
a memória de todos os meus dias: Fariseu único
de um Templo de Escadas Rolantes
quando vejo mudar a água em sangue
e arregaçar as mangas para transformar uma seara em pão
não deixando ao diabo esse trabalho de
mostrar que a realidade não é o que é
mas sempre o outro lado da indiferença

E bato as esquinas levando a pederneira
com que se acendem os poemas que alimentam as primeiras esperanças
atravessando nas passagens de peões com a precaução da caça perseguida
e a preocupação de me dar
desinventando mágoas, repartindo alegrias
como quem escreve um tratado de amizade
num país de vidro onde a dor e…

Countdown

Richard Bram

O Metropolitano

No túnel encurvado ali íamos nós.
à frente, ágil, de casaco de viagem, tu,
e eu, a apanhar-te como um deus veloz
antes que te mudasses em bambu

ou nalguma nova flor branca e vermelha,
e as abas a adejarem com força, eis que se espalha
botão após botão num rasto que assim role
entre o metropolitano e o Albert Hall.

Lua de mel, andar na lua, tarde para os Promenade,
os nossos ecos morrem nesse corredor e agora hei-de
ir como Hansel ia pelas pedrinhas batidas pela lua
refazendo o caminho, apanhando os botões da rua

para acabar nas correntes de ar e na luz frouxa da estação,
partindo os combóios, na via húmida que jaz
a nu e tensa como eu, todo atenção
aos teus passos e a perder-me se olho para trás.



Seamus Heaney
tradução de Vasco Graça Moura

In Darkness Visible

Nicholas Hughes