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Mensagens

Retrato

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.


Luís Miguel Nava

Ler contra o silêncio | 12

Lesendes maedchen
Gustav Adolph Henning

Funeral blues

Blues Fúnebres

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.

Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.


Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
retirado do Insónia



Funeral blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the cof…

I am here

Helena Almeida

Intus

Helena Almeida

Os Sinais

I
Olhar de frente o Sol Assim se aprendem
as letras iniciais da Solidão


XI
Avermelha-te ó pálpebra da noite
para saber se ainda estarei vivo


XIII
Porque te vou erguendo ó torre de papel
se cada vez comigo a sós menos me entendo



poemas de David Mourão-Ferreira
pinturas de Xue Jiye

A caminho do campo...

The green hill
Winslow Homer



Deixo por aqui este rasto de campo, para onde me vou pondo a caminho...
Fiquem bem por cá.

Reencontramo-nos em Setembro!

The dinner horn

Winslow Homer

eira do catavento | 4. janeiro

os radiadores são pouco bucólicos, mas
aquecem a casa toda, impedem que tiritemos
e que a humidade venha aos livros.
na lareira da sala o fogo lambe o ar alegremente,
entre estalidos de lenha a crepitar


quando ela pega e não faz fumo,
e o temporal desabrido, lá fora, dá-nos a medida
de uma tépida mediania cá dentro, enquanto passam
as horas sem sobressalto e é já noite fechada
e sabe bem um chá bem quente, um agasalho,


uma poltrona, um livro, uma vontade vagabunda
de escrever. é inverno, húmido e frio, cor de cinza empastada
e rasa de água. meu amor, deixa-te estar aqui, ainda há
tempo, tempo antes do jantar e das notícias. tempo agora e depois.
aqui. deixa-te estar aqui, fica ainda aqui.


Vasco Graça Moura

Apple picking

Winslow Homer

eira do catavento | 3. setembro

agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas. um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, dvagar. é mais doce no outono a tua pele,


Vasco Graça Moura

On the hill

Winslow Homer

eira do catavento | 2. junho

estás a olhar para mim. tens um chapéu de palha
de abas a acompanhar a curva do teu riso. pode ser
ou praia ou campo o sítio em que me encontras.
eu sei que é no jardim, que os cães agora
dormitam, que há mais rosas quase a abrir,

regadas de manhã, que olhaste as trepadeiras
e mudaste um hibisco, que estão num canto a pá,
o regador, um vaso já sem terra ontem comprado
(não, não vamos à feira logo à tarde)
e além sobe por fim a madressilva.

dão-te as argolas um ar aciganado, acentuando
a tua tez meridional por entre as sombras
leves que tens no rosto, enquanto ris
como a dizer de um tempo sem história,
feito das brisas do sossego, das claridades do verão.


Vasco Graça Moura

Peach blossoms

Winslow Homer

eira do catavento | 1. março

está um bela manhã, clara e fria,
há restos de geada na relva e notas
de amarelo-vivo nos limoeiros.
umas rosas, junto ao muro, resistiram ao inverno
e o sol brilha levemente enevoado.

o cachorro derrubou um vaso de buxo.
fica uma mancha de terra muito preta
nos degraus. salvar o buxo, reenvasá-lo,
tarefas da manhã com ralhos ao cachorro
que não percebe e continua a saltitar

na relva húmida à minha volta.
apito, digo-lhe, isto não se faz.
aponto-lhe o indicador e ele dá à cauda,
alegre e despreocupado. sabe
que há-de saltar atrás das borboletas.


Vasco Graça Moura

Morning glories

Winslow Homer

À luz da lua | 21

Rita & TJ
Thomas Hart Benton

Death and Life

Gustav Klimt

Amigas

Chegámos tarde ao dia aprazado para tratar das nossas mortes. Tinhamos trabalhado tanto a ideia de preparar ao milímetro as nossas últimas vidas e a morte e a morte de cada uma que escolhemos um dia para nos sentar e trocar com juramento de sangue e votos de não sofrer, não cair e nos ajudarmos a morrer de repente.

Agora nada havia a fazer e era difícil estar assim perante a eternidade aprisionada numa capela barroca, sem podermos conversar e estabelecer os protocolos da partida. Agora nada havia a fazer senão dizer as sete últimas palavras e um guia de viagem para não te perderes no rio profundo que tinhas para percorrer. Trouxe os livros antigos só para o caso de ser ainda possível deixar-te debaixo do lençol de linho um guia de orientação para as coisas profundas, as orações em ponto de milho (copiadas de Clarice Lispector) e um copo de prata para as oferendas.
A noite, apesar de tudo, estava luminosa e embora o rio parecesse mais parado do que o costume, as vozes, sobretudo as vozes…