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Mensagens

Para tornar legível a emoção

Agora, que uma luz difusa me fascina
retenho a idade em que não ousava
fazer do coração um lugar de conflito.
Escoa-se, de meus lábios,
sem aviso prévio,
um excessivo odor a maresia,
como se o verão atasse em meu pescoço
a sombra das dunas e todos os ventos
afugentassem a inevitabilidade da morte.
É de musgo, a vertigem
onde demoro as mãos,
para tornar legível a emoção.


Graça Pires
Ortografia do olhar

É sempre em julho

Foi em julho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em julho que, dos teus olhos,
se avista um oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.


Graça Pires
Ortografia do olhar


...para ti R...

Em noites de verão

Em noites de verão,
povoadas de sombras,
não ouso confessar a solidão.
O tempo altera na voz o destino da luz.
Os sons familiares tornam-se sombrios.
O luar, humidamente cheio,
encobre a raiva,
na boca agitada do poema.
A imagem invertida da lua,
a ferir as mãos
e a desmesurar as palavras
arrasta-me o pensamento
até à perturbação.


Graça Pires

poema retirado do Insónia e de um livro que não conheço mas com um título genial "Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos".

Ler contra o silêncio | 10

Sunlight and Shadow
Winslow Homer

as glicínias

nos alpendres de junho perpassa
um halo azul a desprender-se em cheiros
que procuram a terra devagar
numa gaze de luminescências e de abelhas.

é quando cresce a música na intimidade
das glicínias e se despenha o seu perfume
nas sombras mais intensas, como se
falássemos das águas ou da matéria da melancolia

nesta luz feita de sussurros do jardim e
o mundo começasse pelas narinas
e o nó da vida se prendesse
ao voo de um aroma, à sua consistência doce,

arejada entre o chão e as núvens.
desce pelos vãos da solidão macia, lento
como um óleo a alastrar na pele do tempo,
o enredamento grave das glicínias,

para um torpor, para um renascimento,
para uma canção breve das delícias,
um recordar de mágoas, um cacho de silêncios,
um respirar mais fundo, um habitar.


Vasco Graça Moura
(para josé domingos da cruz santos)

Running river

Wang Yi Guang

Estou de partida para um fim de semana alargado.
Regresso durante a próxima semana...fiquem bem!

Ler contra o silêncio | 9

Rêves
Vittorio Matteo Corcos

Prece

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen

No tempo divido

E agora ó Deuses que vos direi de mim?
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
como um monstro a si próprio se devora.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Puro espírito

Puro espírito do êxtase e do vento
Que no silêncio da planície danças

Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia | 34

Sand Beach - Schooner Head, Maine
John Singer Sargent

sinuoso andar

deixo correr meus dedos sobre o ábaco das tuas costelas
em sinuoso andar
meneios de chalupa que deriva
buscando ancoradouros, reentrâncias
como um visitante na ancestral Hiperbórea
a contemplar suas cúpulas e minaretes.

receio repousar perdendo a hora
a contagem das borlas inexatas que te dividem os flancos
o circular das conchas em sifão
se quando envergas arrebatadora
conduzes dedos, palmas, unhas feito côdeas
a minha mão inteira contra a tua.

meu sinuoso andar vagueia então
se destribando
não mais cidade de luzes eternas
a felicidade adormeceu
enfim


Carlos Henrique Leiros do blog Almofariz

As últimas 5 leituras

Respondo ao desafio lançado pelo Rogério Matos do Insustentável, deixando aqui as minhas últimas 5 leituras:

> Frankie e o Casamento de Carson McCullers (em fase de leitura)
> Claro Enigma de Carlos Drummond de Andrade
> A Educação pela Pedra de João Cabral de Melo Neto
> A Formosa Pintura do Mundo de Frederico Lourenço
> Amar não Acaba de Frederico Lourenço

Passo o desafio ao Henrique Fialho do Insónia, à Cristina Nobre Soares do O que é feito de si Mrs Pankhurst? , ao Marx do Voando sobre um ninho de dúvidas, à Marta R do Astro que Flameja, e ao ch do Almofariz.

Eco

Vem até mim no silêncio da noite,
Vem no silêncio sussurrante de um sonho,
Vem com faces cheias e doces e olhos brilhantes
Como a luz do sol num regato,
Vem de volta em lágrimas
Oh! memória, esperança, amor de anos findos.

Oh! sonho doce, tão doce, demasiado amargo e doce,
Cujo acordar deveria ter lugar no Paraíso,
Onde as almas transbordantes de amor vivem e se encontram
Onde olhos sedentos anelantes
Observam a lenta porta
Que abrindo-se, deixando entrar, não mais deixa sair.

Mas vem até mim em sonhos, para que possa de novo viver
A minha vida verdadeira, embora fria na morte
Vem de volta para mim em sonhos, para que possa dar
Pulsar por pulsar, alento por alento:
Fala baixinho, inclina-te mais
Como há tanto tempo, meu amor, há quanto tempo.



Christina Georgina Rossetti
tradução de Margarida Vale de Gato

Ler contra o silêncio | 8

Girl in a Hammock
Winslow Homer

The day dream

Dante Gabriel Rossetti

Num qualquer sítio

Num qualquer sítio decerto deve haver
A face nunca vista, a voz nunca ouvida
O coração que ainda nunca, nunca ainda, pobre de mim!
Respondeu à minha chamada.

Num qualquer sítio, talvez perto ou longe,
Para além da terra e do mar, bem longe da vista
Para além da lua errante, para lá da estrela
Que a segue noite após noite.

Num qualquer sítio, talvez longe ou perto,
Com apenas um muro, uma sebe a escondê-lo,
Ou apenas as últimas folhas do ano a morrer
Caídas sobre um relvado enverdecido.


Christina Georgina Rossetti
tradução de Helena Barbas

The tree of forgiveness

Edward Burne-Jones

Sem Fala

Por muitas milhas sobre terra e mar
Sem o chamar, o meu amor regressou a mim
Não me recordo das palavras que ele disse
Apenas das árvores a gemer sobre nós.

E ele chegou pronto para me tomar e levar
A cruz que há tantos anos eu carregava
Mas as palavras vieram uma a uma devagar
De lábios gelados, selados e mudos.

Como soaram minhas palavras quietas e lentas
Ao coração grande e forte que tanto me amou,
Que veio para me salvar da dor e do mal
E para me confortar com o seu amor tão forte?

Senti o vento a chicotear gelado e frio
E vapores erguerem-se do húmus arruivado;
Senti o feitiço que me suspendia a respiração
A sujeitar-me a uma morte na vida.


Elizabeth Eleanor Siddall
tradução de Helena Barbas