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Mensagens

Nostalgia

Li Shuang

O ar fendido pela borboleta

O ar fendido pela borboleta
quimérica e nocturna e de cor azul.

O pólen do voo no rumor
das achas da lareira amortecida.
Os teus olhos vêm para os meus
com a água da paz de termos visto
o mesmo arco de vida atravessar
o lugar onde estávamos sózinhos

onde vogava no céu tarde
o silêncio do conspirador.

No chão de brisa de poeira
o tumulto do mundo é um luar
sombrio e essa dor serena
leva de nós todas as dores.


Joaquim Manuel Magalhães

Expectation

Li Shuang

Se estás a chegar

Se estás a chegar, a ir-te embora
estende tuas mãos, com as flores
fica o perfume na minha camisola.

As raízes vindo sob a areia
ocultas do sol buscando a água
abrem-se distantes da semente
em lugares de luz, aí bate o vento.

Outra árvore faz agora a sombra
onde nos sentámos rosto a rosto
as mãos presas na sede da camisa.

O velto cacto voltou a rebentar
no tronco seco já sem espinhos
um pequeno punho humedecido
em breve abrirá noutra flor.


Joaquim Manuel Magalhães

Retratos da Mongólia

Sarula



Gerila



Gaowa



Tuya



Dedema



Engma


Xue Mo

The dream

Xue Mo

2 anos Insustentáveis

O INSUSTENTÁVEL faz hoje 2 anos!
Parabéns e... escuta esta música ...




escuta esta música, esta
ténue quietação: vai até onde
descerem as raízes
do coração por humildade.
escureceu mais cedo e vais precisar dela.
já não há rosas no voo das palavras,
só estranhezas, parques para a chuva, e há
na casa do ser sangue e suor, alguns resíduos
duma enredada, dura aprendizagem
entrelaçada nelas, devagar.
o remorso das coisas organiza-se
e é sinuosa a sua irrupção
no interior de nós mesmos. nós os hesitantes, os que
delas tanto quisemos ou deitámos
pra fora da lembrança a sua imagem veemente
e tanta paz incerta procurando-se
na mordedura de um silêncio triste.
tanto aprendi. deveria durar uma defesa
contra o interdito? ou a serenidade é tão difícil
que só a alcança o coração tumultuoso?
como se a noite fosse uma enseada sem serpentes
ou fosse às vezes pura tempestade,
eu quero ver aqui as marcas do destino, o seu
tropel diluído ou acerado, ver aqui
as marcas que vão contra a solidão.
quero a pedra do sol aqui iluminada, …

O mundo parecia morrer todas as tardes...

Ryder's House



Roofs of the Cobb Barn



Cape Cod Afternoon



Corn Hill



Hill and Houses



Bill Latham's House


Edward Hopper

Fragmento de...

Frankie e o casamento de Carson McCullers

"(...) O mundo parecia morrer todas as tardes, e já nada se movia. Por último, o Verão era como um sonho verde agoniante, ou como uma selva silenciosa e absurda, debaixo de vidro.(...)"

Ler contra o silêncio | 5

Shakespeare and Company
Kenney Mencher

Eleanor (1948)

Harry Callahan

Linha de fogo quando olhamos a direito

Linha de fogo quando olhamos a direito,
não posso reparar ao mesmo tempo nos
teus olhos e no que os teus olhos vêem.
Apenas pressinto as árvores e o avanço
calmo de três barcos entrando agora.
Agora, espiral medonha que me arrefece
os braços e inventa luz mais clara, mar
em vez deste tejo. Fiz tanta promessa,
quero partir para onde não pareça que
não cumpro.
.......................................................
Se não limpas as paredes, se não apanhas
a conversa mais calculada, as folhas
que se enrolam no chão. Rio-me do sofrimento.
E levo coisas esquecidas até à vedação
de arame, a uma linha da cor do fogo, aí
deixo cair palavras. Não dou por que passe
o tempo.


Helder Moura Pereira

Eleanor (1950)

Harry Callahan

Por mais que possa digo que não posso

Por mais que possa digo
que não posso. E vou chegando
a medo perto de ti, deixas
uma réstea da linha do corpo,
mapa de minas, bico
de esquina. Deixas que
aproxime às vezes os braços
assim a meio dos gestos, a
boca entre lançar sorrisos
e fechar-se. Agora vou
em hesitação. Agora decido,
não recuarei, abro o portão
do quintal, vou tratar das
flores, espalhar os grãos
de milho. Esquecer as colinas
sobre a pele. Enquanto
não houver segura idade.


Helder Moura Pereira

Bathsheba

Homage to Rembrandt Bathsheba
Patricia Watwood




Bathsheba at her bath
Rembrandt van Rijn

Corpo

Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.


poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
pintura de Mirta Kupferminc

The Northeaster

Homer Winslow

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Ler contra o silêncio | 4

The reading girl
Theodore Roussel

canção breve

é quando a madrugada acende a parda
tonalidade rósea do céu
antes de o sol nascer
e as nuvens vão amarelando. tarda
um pouco mais o ouro em pôr-se ao léu
e a avermelhar-se logo para arder.
é quando entre os lençóis tens um mexer
do corpo a aconchegar-se inda ao tamanho
do sono, um hesitar, a lentidão
das grandes decisões.
e então em lesto andar os pés no chão
e a espuma da nudez dando ao teu banho
estrias brancas, brilhos, borbotões.

e o teu corpo molhado. e o teu sorriso
por entre as gotas de água. o secador
deita o seu sopro quente
e o teu cabelo fica menos liso,
mas há ainda bafos de vapor
condensados no espelho à tua frente.
até que pousas secador e pente
e és ninfa nua que se cobre
de folhas de hera e cachos de glicínia
e então o meu olhar
procura encantamentos e define-a
pelas curvas macias que desdobre
cada gesto traçado pelo ar.
que esta canção tão breve, amor, perpasse
à flor da tua pele
e nela se entrelace
enquanto houver no mundo uma manhã,
mas de ti não revele
mais que essa leve sugestão pagã.


Vasco Graç…