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Mensagens

Voz

Olhamos à volta e não sabemos bem do que se trata. As mãos
estão imóveis há algum tempo. É dentro delas que cabe
tudo o que é nosso. O rumor que chega com o vento torna-se maior
ao repararmos agora nas folhas. Alguém principiou a chamar-nos
e é devagar que repete o mesmo nome, como se houvesse nos olhos
qualquer sombra porque assim é tudo o que se ignora. Ao longe
só ele pôde ver como estão os caminhos separados e as ondas
se dirigem ao encontro de outras praias. Ficou ali suspensa
uma luz desconhecida, agora recortada pela neblina que veio
com a manhã: quem se encontra sozinho talvez conheça melhor
o seu segredo. De novo se fecharam as nossas mãos. Há
uma árvore que desperta com a sua forma pesada e simples.

Fernando Guimarães

Aniversário

Salva-me agora, não desta morte ou de outra
mas de ir vivendo assim seguramente
sem música nem arte, e com o amigo ausente.
No escuro ainda levantei-me e vi
a antiga madrugada que nascia
leve e primeira com a luz macia.
E quem me ouvia, se não os mortos mansos
e generosos sob a lousa fria?
É certo que sonhei que me deixavas
amar e ser amado, como quem
sem mérito nem rosto me fizeste;
mas era de cantor que me mandavas
às portas da cidade ver arder o dia.

António Franco Alexandre

Bonheur

Marc Chagall

Amor é o olhar total

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre à àgua.

Fiama Hasse Pais Brandão

La promenade

Marc Chagall

Bouquet aux amoureux volants

Marc Chagall

Vidrado

Se a chuva parasse
continuarias a não estar aqui
pelo que prefiro que a chuva prossiga
como sulfúreo castigo;

se te olho através da vidraça
é porque penso ser um dia o namorado
fantasma
a espreitar-te do pára-brisas estilhado
como de insistente postigo.

Daniel Jonas

Nell' Acqua

Lorenzo Mattoti

Acerca do sentido (3)

A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós finalmente se encontra uma nova imagem abandonada pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?

Fernando Guimarães

Acerca do sentido (1)

Aproxima-te. É assim que consegues encontrar algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos escorresse um pouco de água, a sua transparência súbita. Recebe o que elas te podem dar agora, a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno só para que depois consigas compreender como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.

Fernando Guimarães

Da Terra

Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar areia e margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

Fiama Hasse Pais Brandão

Domingo no mundo | 12

O meu mundo és tu e eu
Ricardo Tavares
www.olhares.com

Entranced

Victor Wang

Aqueles claros olhos que chorando

Aqueles claros olhos que chorando
ficavam, quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia,
que torne a vê-los, na alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!

Luís de Camões

The Moment of Time

Victor Wang

Cair do Pano

As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa

da areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesto à cabeça,
cumprido o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz

do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim, os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá

irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.

Rui Knopfli

O Monhé das Cobras

Manhã gloriosa, imobilizada na distância,
no extremo da caixa de areia branca
onde, agachado, anónimo e ascético,
envolto em alvos panos e silêncio,
está. O pudvém cobre-lhe o escroto

e sobraça-lhe as pernas magras e finas
de esquálido aracnídeo. No topo o turbante
e a barba anciã oscilam na brisa matinal.
Principia, então, a enfeitiçar o dia,
com exactos gestos rituais. Ergue-se,

por fim, plangente e implorativo,
o sinuoso som, para revelar, em
lentos arabescos, os assombros guardados
no sábio cesto de vime. Obedientes,
as cobras capelo encenam, à maneira,

seu acto, a coberto da enganosa pintura.
Húmidas, dardejam ao sol, rápidas,
coruscantes e fatais línguas bífidas.
Nós, meninos, paralisados de medo
e espanto. A esteira irá perde-se

no longe da areia, gasto tapete voador
voando imóvel no céu profundo
da imaginação. Privilegiado observador
desta vigília acesa debruando já,
de mansinho, as margens do sono.

Rui Knopfli

Bela Silva