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Mensagens

A Stream in the Forest, Winter

Shigeki Tomura

Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão

À luz da lua | 12

Madre e Hijo
Fernando Botero

Do Mar

Geoffrey Demarquet
www.olhares.com


Aqueles de um país costeiro, há séculos,
contêm no tórax a grandeza
sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco,
as palmas das mãos. Os cabelos são banais
como algas finas. O mar
está em suas vidas de tal modo
que os embebe dos vapores do sal.

Não é fácil amá-los
de um amor igual à
benignidade do mar.

Fiama Hasse Pais Brandão

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Ferreira

Nighthawks

Edward Hopper

Le Bistro

Edward Hopper

É pela tarde, quando a luz esmorece

É pela tarde, quando a luz esmorece
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.

Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que se cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.

Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.

Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão.

Reinaldo Ferreira

abriste a janela e voaste...

Absolute Faith
Thomas Barbèy
www.thomasbarbey.com


A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "a…

Self Portrait with Loose Hair

Frida Kahlo (1947)

Self Portrait as a Tehuana (Diego on My Mind)

Frida Kahlo (1943)

Self Portrait (III)

Frida Kahlo (1940)

Self Portrait (II)

Frida Kahlo (1940)

Self Portrait with Monkey

Frida Kahlo (1938)

Self Portrait (Dedicated to Leon Trotsky)

Frida Kahlo (1937)

Self Portrait

Frida Kahlo (1926)

A Magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu esplendor

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge

Reclining Nude

Edward Hopper

Três Mulheres, poema a três vozes (III)

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, por cascos de ferro.
Resisto. Resisto o mais que posso. Concluo a obra.
Um túnel negro, através do qual se percipitam as aparições,
As aparições, as evidências, os rostos desfigurados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que dores, que penas estarei eu a dar à luz?

Será esta inocência capaz de matar e matar repetidamente? Suga-me a vida
As árvores secam na rua. A chuva é corrosiva.
Experimento-a na minha língua, e todos os outros horrores praticáveis,
Os horrores que esperam e espreitam, as madrinhas desdenhosas
Com os corações a fazerem tic tic, e os seus saquinhos de instrumentos.
Eu hei-de ser uma parede e um tecto protector.
Hei-de ser um céu e uma montanha de bondade: Mas agora deixem-me!

Sinto uma força a crescer dentro de mim, uma imensa tenacidade.
Rasgo-me ao meio, como o mundo. E há esta escuridão,
Toda esta profunda escuridão. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar está espesso. Está espesso com o labor.
Sou usada. Sou u…

Serenity in the Lake

Tran Quang Huan