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Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

Aqui nesta praia | 9

Femmes de Tahiti sur la plage
Paul Gauguin

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira

Red & White

Cheng Yuanan

The door of the bird cage

Cheng Yuanan

Carlos Drummond de Andrade

Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo.
Isto feito, louvo aquele
Que ora chega aos sessent'anos
E no meio de seus pares
Prima pela qualidade:
O poeta lúcido e límpido
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Prima em Alguma Poesia,
Prima no Brejo das Almas
Prima em Rosa do Povo,
No Sentimento do Mundo.
(Lírico ou participante,
Sempre é poeta de verdade
Esse homem lépido e limpo
Que é Carlos Drummond de Andrade).

Como é o fazendeiro do ar,
O obscuro enigma dos astros
Intui, capta em claro enigma.
Claro, alto e raro. De resto
Ponteia em viola de bolso
Inteiramente à vontade
O poeta diverso e múltiplo
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Louvo o Padre, o Filho, o Espírito
Santo, e após outra Trindade
Louvo: o homem, o poeta, o amigo
Que é Carlos Drummond de Andrade.

Manuel Bandeira

Fragmento de...

O Amor nos Tempos de Cólerade Gabriel Garcia Márquez

"O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites."

Aqui nesta praia | 8

The Bathers
Pablo Picasso

Entre o ser e as coisas

Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva.

As almas, não, as almas vão pairando,
e, esquecendo a lição que já se esquiva,
tornam amor humor, e vago e brando
o que é de natureza corrosiva.

N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

E nem os elementos encantados
sabem do amor que os punge e que é, pungindo,
uma fogueira a arder no dia findo.

Carlos Drummond de Andrade

Safe Haven I

Eng Tay

Summer Poems

Eng Tay

Mãos Dadas

Aqui nesta praia | 7

Promenade on the beach
Winslow Homer

Fragmento de...

A Formosa Pintura do Mundo de Frederico Lourenço

"A tragédia grega ensina que o amor não deve atingir a própria medula da alma. Mas na vida de alguns de nós, de preferência uma única e irrepetível vez, a medula da alma é atingida pelo amor. Felizes os que sobrevivem."

Song of the boat

Zhu Yiyong


Trocaria eu tudo por uma
lanterna iluminada?
Uma luz quente, luz mãe,
que me aquecesse sem mais nada?

Lanterna minha, meu tesouro,
perdem-se já as vozes na rua...
Mantém-te acesa noite dentro,
a tua cor quente com a cor branca da Lua.

Olho-te em sonhos, adormecida pelo mar,
lanterna encantada luzes no meu espanto.
Volta a maré e a marezia range na madeira do barco ao canto,
e eu canto baixinho para que não se percam os espíritos,
pois de volta mergulham, no último luar da noite.

Aqui nesta praia | 6

La playa
Fernando Botero

Ao Lume da Água

Detinhamo-nos por entre a luz e o rumor
da alegria, o som da erva e a brandura grave
dos seus gestos. Tínhamos o sentido de tudo
ao alcance de nossas mãos. Quase bastaria
estendê-las e pousá-las na fria realidade,

tomar-lhe o peso redondo, sentir-lhe a superfície
apreensível. E, de repente, o negrume informe
e espesso, o desmoronar vertiginoso da razão
(Oh meu Amor, à beira da morte, tão perto
da vida! Estremeces nos meus braços,

levo na minha à tua boca a respiração
indispensável, um ténue sopro alveolar.
Estremeces, pequeno animal de ternura,
teu único sentido alerta, no mais um opaco
sono crepuscular. Gaivota surpreendida

no cerne da tormenta, tenteias hesitante,
vagarosamente, a frágil ponte lançada
através da bruma. Permaneces equilibrada
sobre o pavor e a ternura. Liga-nos uma acesa
elipse de fogo, uma curva seminal

apoiada em lábios, línguas, sexo
e nos bornes da imaginação. Por aí
circulamos, livres, esguios peixes
líquidos deslizando em silêncio
e penumbra. Amanhã não é, talvez.

Por ora respiras. Man…

Hot Summer V

Zheng Gang

Hot Summer IV

Zheng Gang